(Inspirada no poema “congresso internacional do medo” Homenagem a Carlos Drummond de Andrade)
Vamos nos reunir agora para ver um século morrer e um novo milênio nascer.
Vamos falar do medo, flagelo vermelho do ódio,
Das guerras pelo petróleo, do terror enrustido, da fé pagã típica do fim de ciclo.
Vamos nos unir em volta da fogueira e cantar o amor dentro da neblina.
Vamos criar uma távola redonda para discutir os problemas do mundo,
O sexo dos anjos e a chegada do apocalipse.
Vamos sentar juntos para falar das paixões abandonadas nas esquinas,
Esquecidas na alcova ou refugiadas no subterrâneo.
Vamos dissertar sobre o medo nosso pai tirano,
Irmão de desventuras, amigo nos descaminhos,
Companheiro nas torturas, passageiro da agonia.
Vamos debater sobre o medo esse eterno parceiro que faz nossas pernas tremerem,
O coração descompassar e o espirito fechar em copas.
Vamos tentar entender esse medo que nos atormenta
Desde a hora do nascimento e quem sabe ir em frente.
Vamos superar o medo e dar vazão aos sonhos de amanha,
Espaço para alegria, cor a rotina para ir além do permitido,
Esquecer o proibido deixando o riso frouxo e as ideias livres.
Vamos nos reunir e criar uma confraria
E amanha... Sobre nossos túmulos e flores amarelas descansarão em paz,
Mas por hora não existe expectativa sobre a vida,
Abandonada nos guetos – habitat natural da miséria,
Vamos falar sobre os atributos impares que trucidam o ódio (câncer dos sentidos),
Dissertar a respeito dos sentimentos que humanizam a alma,
Dos abraços que aplacam as angústias;
Nas madrugadas tecer planos contra a intolerância,
Compor versos contra a violência urbana.
Vamos caminhar ate o amanhecer sem receios,
Sem medo do escuro ou temer absurdos.
O medo não irá prender nossos passos, podar nossas asas,
Limitar nossas vontades ou mesmo sufocar nossas palavras.
Vamos rever nossos conceitos
Porque não aceitamos o preconceito - tolice humana,
Não acreditamos na guerra – falência da inteligência,
Não compactuamos com a força – logica dos brutos.
Olhamos a nossa volta e enxergamos o medo nosso pai ausente na alegria,
Companheiro das incertezas diárias
Perambulando pelas esquinas sombrias atrás do prazer de aluguel,
Do gozo pago, da satisfação fácil e palavras dissimuladas.
Enxergamos de longe o medo grande do sertão feudal
Composto de ilusões e absurdos,
Dos mares em fúria e desertos escaldantes.
Enxergamos o medo nos olhos inocentes,
O medo do soldado no front,
Das mães que esqueceram os sonhos no subterrâneo,
O medo anacrônico do senhor dos casarões.
Percebemos o medo nos olhos dos ditadores,
Falamos do medo dos falsos democratas,
Dos teólogos corretores do paraíso,
Dos pregadores do vazio messiânico.
Notamos nos detalhes o medo dos déspotas,
Tiranos da família que choram como criança ao ficarem no escuro sozinhos.
Declamamos poesias sobre o medo da morte e o medo do pós-vida ,
Depois no crepúsculo morreremos de medo nas portas do paraíso
E em nossas sepulturas esquecidas no exílio nascerão flores desbotadas e tristes.
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Brotherhood of Fear 3
Let us now gather to watch a century die
And a new millennium be born.
Let us speak of fear, the red scourge of hatred,
Of wars for oil, of harbored terror,
Of pagan faith typical of a cycle's end.
Let us unite around the fire and sing of love within the mist.
Let us create a round table to discuss the world's problems,
The sex of angels and the coming of the apocalypse.
Let us sit together to speak of passions abandoned on street corners,
Forgotten in the alcove or sheltered underground.
Let us speak of fear, our tyrant father,
Brother in misfortune, a friend on crooked paths,
Companion in torture, a passenger of agony.
Let us debate this eternal partner, this fear that makes our legs tremble,
Our hearts lose their rhythm and our spirits close up.
Let us try to understand this fear that torments us
Since the hour of birth, and who knows, go on ahead.
Let us overcome fear and give way to the dreams of tomorrow,
Give space for joy, color to the routine to go beyond the permitted,
Forget the forbidden, letting loose laughter and free ideas.
Let us gather and create a confraternity
And tomorrow... Above our graves, yellow flowers will rest in peace.
But for now there is no expectation for life, abandoned in the ghettos,
The natural habitat of misery.
Let us speak of the unique attributes that slaughter hatred (the cancer of the senses),
Speak of the feelings that humanize the soul,
Of the hugs that soothe anguish;
In the early mornings, weaving plans against intolerance,
Composing verses against urban violence.
Let us walk until dawn without apprehension,
Without fear of the dark or fearing absurdities.
Fear will not hold our steps, prune our wings,
Limit our desires or even suffocate our words.
Let us review our concepts
Because we do not accept prejudice – human foolishness,
We do not believe in war – the bankruptcy of intelligence,
We do not conspire with force – the logic of the brutes.
We look around and see fear, our absent father in joy,
Companion of daily uncertainties
Wandering through the dark corners in search of rented pleasure,
Of paid bliss, easy satisfaction and dissimulated words.
We see from afar the great fear of the feudal wilderness
Composed of illusions and absurdities,
Of seas in a fury and scalding deserts.
We see fear in innocent eyes,
The fear of the soldier at the front,
Of mothers who forgot their dreams in the underground,
The anachronistic fear of the lord of the manor.
We perceive fear in the eyes of dictators,
We speak of the fear of false democrats,
Of theologians, brokers of paradise,
Of preachers of the messianic void.
We notice in the details the fear of despots,
Family tyrants who cry like a child when they are left alone in the dark.
We recite poems about the fear of death and the fear of the afterlife,
Then at dusk we will die of fear at the gates of paradise,
And in our forgotten graves in exile, sad and faded flowers will be born.

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