Um dia desses conversando com um amigo (de longa data) começamos uma
avaliação do quanto havíamos amadurecido neste ciclo continuo de
amealhar calendários pelos cantos. Lembramos da infância sem internet –
logo sem redes sociais, sem tevê a cabo, vídeo game era pinball (ele um
pouco mais velho do que eu viu a tevê nascer preto & branco e ainda
teve o videojogo lançado no final dos anos 70’), mas como era bom tudo
ser simples, porque existia um ar místico de fantasia, nada vinha
pré-fabricado.
E continuamos nossa conversa, lembrando das brincadeiras que já
caíram no esquecimento e de como era divertido apenas brincar na
enxurrada da chuva, jogar bola no campinho do bairro (antes todo bairro
tinha um e hoje só existe prédio e quadra sintética), e nossa primeira
impressão foi que vivemos uma época única, sabendo de antemão que meu
filho também terá essa impressão daqui alguns anos.
Demos sequência ao nosso papo de happy-hour, agora falando da
adolescência, do tempo das descobertas, do primeiro amor que só é eterno
no pensamento, do sofrimento que exaspera, do rompimento com a primeira
namorada, das horas que parecem nunca passar, da rotina do colégio, da
implicância (?) dos pais com os nossos amigos – quase todos vistos como
más companhias e de como éramos manipulados por eles para fazer coisas
erradas.
A adolescência é única, porém imutável, as gerações passam, os anos
também e os séculos idem, mas a adolescência continua a mesma, rebelde
sem causa, questionadora por principio, imortal enquanto o peso das
responsabilidades não cai sobre as nossas costas.
É como diz o trecho da
música da Legião Urbana “Eduardo & Monica”:
‘(…) deixou o cabelo crescer e decidiu trabalhar’ e uma voz grita no fundo: ‘Nãããoooo’!
É nessa fase também que acaba acontecendo às primeiras perdas. Familiares próximos que morrem por causas naturais, amigos que se vão
por excessos de todos os tipos, acidentes que cortam nosso caminho, é o
primeiro contato real com a morte, com o inevitável e percebemos, damos
conta que somos pequenos demais.
Neste momento da conversa, já estamos no meio de uma garrafa de
Whisky, mas ainda sóbrios e prontos para entramos na analise da fase
adulta, época do trabalho sério e dos relacionamentos mais ainda, de
pagarmos nossas contas sem auxilio de ‘papai e mamãe’, de contarmos
apenas com os nossos recursos, conquistados no passado recente e vemos
que podíamos ter feito tudo diferente se tivéssemos mais discernimento,
mais ouvido e um tanto mais de atenção.
Vemos que debochamos quando tínhamos que ter levado a sério, rimos,
melhor gargalhamos quando tínhamos que ficar calados, falamos quando
tínhamos que manter o silêncio, e sonhamos quando era hora de ficar
acordados, mas no fim entre os mortos e feridos, sobrevivemos como na
fabula de Homero e retornamos para casa, mais sábios, não!
E por quê? Porque basta um vacilo, um pouco momento de carência, um
resquício de fraqueza, uma dose a mais, e mesmo depois dos trinta
voltamos ao passado, caímos, falamos bobagem, frases que machucam
demais, misturamos sentimentos e por vezes enviamos sinais e hoje ficou
pior porque podemos enviar mensagens de A para B, sendo que A era para X
e B entrou na historia por puro vacilo, no fim resta viver com a
certeza da mancha, do risco evitável, mas a falta de bom senso acabou
falando mais alto, e o que fica é o abismo e esse é o preço a ser pago
pelo vacilo, afinal o que foi dito ou escrito não pode ser desdito e
muito menos reescrito, cabe apenas seguir em frente, virar a pagina e
tocar a vida, superando a dor da ausência e tendo a certeza da cicatriz.
Nesse ínterim a garrafa já está quase vazia, as horas lá pelas
tantas, mas o pensamento continua afiado, o cérebro tomado pelo álcool,
agora divaga pela velhice, no tempo do que ainda está porvir se a morte
não cortar antes nosso caminho.
Concluímos que somos cultos, homens que ainda lutam a boa luta, mas
estamos longe de sermos sábios, ainda somos como aqueles meninos que
brincavam à tarde na enxurrada sem medo dos raios da tempestade, e
percebemos a contra gosto que para fazer uma burrada não existe limite
de tempo ou idade.
